Todas as noites, quando saia para
caminhar, aquele menino de olhos tristes, ficava encantado com belíssimo pássaro,
que aparecia todas as noites, no galho mais baixo, da árvore mais solitária
daquele bosque. Era pequenino, dourado e com o bico avermelhado de onde saia um
canto magnífico e encantador, capaz de envolver qualquer pessoa com as suas
notas melodiosas e doces. Dava para perceber naquele ritmo compassado; o amor
ao qual ele dedicava àquelas canções. A beleza do seu canto era capaz de
envolver qualquer um, numa atmosfera de prazer, de perfeição, de contemplação.
Não existiam problemas; nem dor, muito menos medo.
- Olá, muito prazer! Estava andando
por aqui, quando me deparei com a beleza do seu canto. Eu posso me sentar nesta
pedra e admirá-lo por um momento? Perguntou o menino.
- Sim, claro. Será um imenso prazer
dedicar-lhe um canto - disse o pássaro. Ninguém vem me visitar, logo eu, que tenho
o canto mais belo de todos.
Naquela noite o pássaro cantou
lindamente, como se aquele momento fosse o último de sua vida. Era impossível
ser indiferente a ele, negar o seu encanto era o mesmo que negar à vida o
direito à liberdade; negar ao sonho o direito de ser real ou a enfermidade à
cura.
Impressionado, o menino disse: Magnífico,
muito obrigado por me permitir admirá-lo. Fez da minha noite a mais feliz de
todas. Bem-aventurado aquele que puder ouvir pelos uma nota desse inesquecível
som; completou o menino.
O Pássaro percebeu que mesmo
deleitando-se com o seu canto, o menino tinha nos olhos uma angustia dominante,
que ia de encontro com o prazer daquela noite feliz. – Tens os olhos tristes,
disse.
- Os motivos que tenho não me permitem
ter outros olhos senão esses!
- Mas como? É jovem, belíssimo e é tão
bondoso. São esses os motivos que, certamente, fazem de qualquer pessoa, um ser
mais feliz.
- Não sei o que é o amor, muito menos
sei o que é amar; disse o menino. Sempre vejo as pessoas falando da beleza do
amor; da forma com ele as completa; de como ele é bondoso e justo. Gostaria
muito que alguém fizesse questão de me ter todos os dias. Sempre sonhei em
receber um abraço de amor; um sorriso de amor; um beijo de amor. Completou o
menino, com os olhos tão gélidos, carregados com lagrimas as de uma tristeza
absoluta.
- Não, não chores menino. Você tem uma
vida inteira pela frente, certamente, saberás o que é amar. Terás o seu abraço
de amor; o seu sorriso de amor; o seu beijo de amor.
Por favor, ensina-me? Você canta com
uma ternura. Sua melodia faz com que o meu mundo encha-se de prazer, de vida. Ser-lhe-ei
tão grato por isso – Interpelava o menino, enquanto enxugava as lágrimas.
- Não se pode aprender o amor. O amor
não é algo que se aprender; é algo que se senti, que se vive. Pobre ser-se tu
menino, que não pode sentir o calor dominante de um amor verdadeiro.
O pássaro sabia que não podia ensinar
ao menino a amar, pois, o amor é algo maior do que, não pode ser conquistado
com um simples ensinamento. Ele é uma condição eterna de felicidade e de
contemplação absoluta do outro. Percebeu que não podia ensiná-lo, mas tinha
condições de fazer com que ele o sentisse na melodia do seu canto sublime.
- Venha me ver todas as noites. Prometo
fazer delas as mais felizes sempre, com muito prazer.
- Ah, meu querido pássaro, não imagina
o quão grato serei a você. Quero ter em meu coração o calor que, todos dizem
ser do amor.
Daquela noite em diante, sem falta, o
menino visitou o pássaro, com a esperança de ser contemplado com o dom de amar.
Não se sabe algum dia o menino foi capaz de receber o seu abraço de amor; seu
sorriso de amor; seu beijo de amor. É certo que, a cada nota daquela música
envolvente, suave e apaixonante que o pássaro dedicava àquele menino, trazia
mais cor, mais vida ao seu mundo. Um mundo onde é possível admirar a beleza do
canto de um pássaro, a verdade do desabrochar inocente de uma rosa; o carinho
sincero da brisa que toca a pele, mas que não se pode e nem se sabe como amar.
Alguns acreditam que o menino ame de
maneira diferenciada. Ele se apaixona pelos detalhes: o som da chuva caindo
sobre o chão; o a paciência da lagarta para virar borboleta; a fidelidade de um
pássaro que dedica à vida, para prover á um menino, de olhos frios e gélidos, a
capacidade de simplesmente, amar. Admirar com prazer os detalhes,
valorizando-os, talvez seja a forma como o menino ama. São os detalhes que tem
os fragmentos mais verdadeiros da alma de um ser.