segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Para não dizer que eu não falei das palavras


Palavras são nada mais, nada menos que aglomerações de letras que criam um sentido, um sentimento, um senso comum, criam uma nova realidade. Elas podem ser cruéis, bondosas, infelizes e felizes. Tem a capacidade de explicar, confundir, apaixonar e também de desapaixonar. Curam enfermos, libertam presidiários, salvam vidas, mas também as destroem. São dissílabas, trissílabas, e monossílabas e o que mais poderem ser. Algumas têm acento, outras não. Outras recebem um acento que não existe, e às vezes mesmo tendo não os têm.

Existem palavras que parecem ter sido feitas exclusivamente para uma determinada música, pois elas dialogam de uma maneira única e tão fantástica que é uma ousadia usá-las em outra situação se não essa. E aquelas que formam um livro? Parece que o autor abriu a sua mala de palavras e preocupou-se em escolher a dedo, cada uma, da mesma maneira que fazemos quando catamos feijão, com todo o cuidado para que a pessoa que vai comê-lo não encontre ali uma pedra. 

Agora, convenhamos, as mais chatas são aquelas das bulas de remédio. Elas são metidas, não gostam de serem vistas, ficam lá, apertadinhas numa pequena folha de papel. E as primas delas então? Não conhece? Poxa vida, as melhores amigas dos médicos, apelidadas de garranchos, o patinho feio da família. Mas elas são importantíssimas, pelo menos parecem ser.

As palavras preferidas dos apaixonados, não sei não, elas são muito chatas. Melosas de mais, manhosas de mais e às vezes quentes de mais. Dizem que vem com uma caravana, que me foge o nome agora... Ah, lembrei, Caravana do amor, é isso. Um ônibus cheio delas! Tem as destrambelhadas, usadas no começo do romance, que fazem dos apaixonados perfeitos idiotas. Além delas existem as amantes, que são as mais doces, mas nem sempre verdadeiras, elas garantem a noite e principalmente a alegria das picantes, aquelas do momentos íntimos e bem quentes.

Certamente, se tem algumas que não se bicam, são as amigas dos linguísticos e as dos moderninhos. As amigas dos linguísticos, as nacionalistas, compõe um grupo enorme, e bem fresco, não se misturam com as gringas, aquelas que acompanham a moda do momento. Dentro desse imenso grupo que é o das nacionalistas, existem vários subgrupos, alguns bem religiosos. Nunca trocariam uma boa oração subordinada assindética por uma subordinada reduzida; e que ultraje seria trocar uma oração subordinada adjetiva explicativa por uma subordinada adverbial temporal.

E as peruas, aquelas que gostam de um bom enfeite? Pertencem ao grupo chamado verbos, e são muitíssimo indecisas: sempre preocupadas se sairão de mesóclise, ênclise ou até mesmo de próclise, além de serem meio esquecidas, nunca sabem em que tempo estão. Vivem por aí, questionando se estão no presente, no passado. Será que é o pretérito mais-que-perfeito ou imperfeito? Os amantes dessas peruas é que são chato. Ninguém nunca sabe que tipinho é esse sujeito. Às vezes ele é simples, composto, os mais malandros são ocultos, esse é do mal, certeza! Sempre desfilando com o predicado, um tremendo duas caras, falso. Sempre falando bem, mas também mal do coitadinho do sujeito.

Bom, para algumas pessoas pouco importa a vida dessas palavras, elas não são nada além de palavras. A única função delas é criar um sentido, um sentimento, um senso comum, uma nova realidade. Às vezes é permitido que elas sejam cruéis, bondosas, felizes e até infelizes. Podem ter a capacidade explicar, confundir, apaixonar e também de desapaixonar. Curar enfermos, libertar presidiários, salvar vidas, mas também as destruí-las. Devem ser dissílabas, trissílabas, e monossílabas e o que mais der para ser. Algumas terão acento, outras não. Receberão, erroneamente, um acento que não existe, e às vezes mesmo tendo não os terão.

As pessoas só querem que elas estejam no lugar certo e na hora certa, de preferência, no tempo perfeito, com o sujeito mais-que-perfeito, na oração mais simples e singela possível. Sem clichês, nem cacofonias, muito menos dubiedades. Por favor, sem dubiedades!

domingo, 8 de janeiro de 2012

O colorido palhaço sem cor


Alto, aproximadamente 1,90 de altura. Magro, mais ou menos 67 quilos. Meio careca, olhos fundos, negros e tristes. Essas são algumas das características do palhaço Plôm, uma das principais atrações do Gran Circo Espoleto.

Todos os dias, às 18 horas, Plôm começa a se preparar para o seu show, o último da noite.  Pinta-se com as cores mais lindas, alegres; as cores mais vivas que qualquer palhaço do mundo inteiro, um dia já se pintou. O seu nariz é de um vermelho tão intenso quanto o da rosa mais bonita que já existiu. Teu chapéu tem um amarelo tão apaixonante e revigorante, que muitas vezes confundem-no com o sol nas manhãs de verão. As cores das listras da sua camiseta parecem que foram pegas a título de empréstimo do Arco-íris e como pagamento, o palhaço oferece os risos das pessoas que o assistem todas as noites.

                Mesmo sendo tão colorido como é Plôm se vê preto e branco. Em toda a sua vida como palhaço, nunca se viu colorido, pelo contrário. Para ele não há cor, nenhuma. Uma dor o incomoda, um triste sentimento. É impedido de ser feliz, de ver o intenso vermelho  do seu nariz, a sua belíssima camiseta colorida, não lhe permite se deleitar com o brilho apaixonante do seu fabuloso chapéu.

Essa dor nada mais é do que a tristeza que sente por não ter ninguém ao seu lado. Alguém que lhe faça dar altíssimas e exageradas gargalhadas como uma criança inocente. Infelizmente ele nunca encontrou essa pessoa. Anos e anos fazendo pessoas rirem sem ter que lhe faça rir. Plôm é consciente de que faz pessoas felizes e de que as pessoas o procuram com a intenção de curarem a suas carências com as palhaçadas dele. Mas quem curaria as suas carências, era o que sempre se perguntava.

                Plôm nunca entendeu que nasceu para isso, e que fazia muitíssimo bem. Era o melhor palhaço de todos. Não compreendia que esse dom, o de divertir as pessoas, era um dos mais incríveis dons que existem. Poucas são as pessoas que fazem isso com prazer, com alegria. Aquele que não se entrega completamente a essa arte, torna-se falso, sem graça, sem vida. Mas apesar de se entregar totalmente a isso, o palhaço não se sente feliz. Ele não é feliz justamente porque não se permite ver como tal: como alguém que nasceu para completar o coração dos outros com as suas peripécias mais inocentes e engraçadas; um palhaço que enche de cor a vidas das outras pessoas.

Aceitar-se como um problema é difícil, mais ainda é aceitar-se como alguém que pode mudar a vida de outras pessoas com a sua bondade, sem ter alguém ao seu lado que faça o mesmo por você. Plôm vive assim, fazendo bem aos outros, continua colorindo a vida dos outros com a esperança de que alguém lhe traga cor, vida e muitos risos.


Companheiros