Palavras
são nada mais, nada menos que aglomerações de letras que criam um sentido, um
sentimento, um senso comum, criam uma nova realidade. Elas podem ser cruéis,
bondosas, infelizes e felizes. Tem a capacidade de explicar, confundir,
apaixonar e também de desapaixonar. Curam enfermos, libertam presidiários,
salvam vidas, mas também as destroem. São dissílabas, trissílabas, e
monossílabas e o que mais poderem ser. Algumas têm acento, outras não. Outras
recebem um acento que não existe, e às vezes mesmo tendo não os têm.
Existem
palavras que parecem ter sido feitas exclusivamente para uma determinada
música, pois elas dialogam de uma maneira única e tão fantástica que é uma
ousadia usá-las em outra situação se não essa. E aquelas que formam um livro?
Parece que o autor abriu a sua mala de palavras e preocupou-se em escolher a
dedo, cada uma, da mesma maneira que fazemos quando catamos feijão, com todo o
cuidado para que a pessoa que vai comê-lo não encontre ali uma pedra.
Agora,
convenhamos, as mais chatas são aquelas das bulas de remédio. Elas são metidas,
não gostam de serem vistas, ficam lá, apertadinhas numa pequena folha de papel.
E as primas delas então? Não conhece? Poxa vida, as melhores amigas dos
médicos, apelidadas de garranchos, o
patinho feio da família. Mas elas são importantíssimas, pelo menos parecem ser.
As palavras
preferidas dos apaixonados, não sei não, elas são muito chatas. Melosas de mais,
manhosas de mais e às vezes quentes de mais. Dizem que vem com uma caravana,
que me foge o nome agora... Ah, lembrei, Caravana do amor, é isso. Um ônibus
cheio delas! Tem as destrambelhadas,
usadas no começo do romance, que fazem dos apaixonados perfeitos idiotas. Além
delas existem as amantes, que são as
mais doces, mas nem sempre verdadeiras, elas garantem a noite e principalmente
a alegria das picantes, aquelas do
momentos íntimos e bem quentes.
Certamente,
se tem algumas que não se bicam, são as amigas dos linguísticos e as dos
moderninhos. As amigas dos linguísticos, as nacionalistas,
compõe um grupo enorme, e bem fresco, não se misturam com as gringas, aquelas que acompanham a moda
do momento. Dentro desse imenso grupo que é o das nacionalistas, existem vários subgrupos, alguns bem religiosos.
Nunca trocariam uma boa oração subordinada assindética por uma subordinada reduzida;
e que ultraje seria trocar uma oração subordinada adjetiva explicativa por uma
subordinada adverbial temporal.
E as
peruas, aquelas que gostam de um bom enfeite? Pertencem ao grupo chamado verbos, e são muitíssimo indecisas:
sempre preocupadas se sairão de mesóclise, ênclise ou até mesmo de próclise,
além de serem meio esquecidas, nunca sabem em que tempo estão. Vivem por aí,
questionando se estão no presente, no passado. Será que é o pretérito
mais-que-perfeito ou imperfeito? Os amantes dessas peruas é que são chato.
Ninguém nunca sabe que tipinho é esse sujeito. Às vezes ele é simples,
composto, os mais malandros são ocultos, esse é do mal, certeza! Sempre
desfilando com o predicado, um tremendo duas caras, falso. Sempre falando bem,
mas também mal do coitadinho do sujeito.
Bom, para
algumas pessoas pouco importa a vida dessas palavras, elas não são nada além de
palavras. A única função delas é criar um sentido, um sentimento, um senso
comum, uma nova realidade. Às vezes é permitido que elas sejam cruéis,
bondosas, felizes e até infelizes. Podem ter a capacidade explicar, confundir,
apaixonar e também de desapaixonar. Curar enfermos, libertar presidiários,
salvar vidas, mas também as destruí-las. Devem ser dissílabas, trissílabas, e
monossílabas e o que mais der para ser. Algumas terão acento, outras não. Receberão,
erroneamente, um acento que não existe, e às vezes mesmo tendo não os terão.
As pessoas
só querem que elas estejam no lugar certo e na hora certa, de preferência, no
tempo perfeito, com o sujeito mais-que-perfeito, na oração mais simples e
singela possível. Sem clichês, nem cacofonias, muito menos dubiedades. Por
favor, sem dubiedades!


