Há pouco tempo
terminei de ler um livro maravilhoso, O homem duplicado, do simplesmente
brilhante José Saramago. Este livro trata de um assunto interessante e
muitíssimo pertinente. Saramago nos conta a estória de um homem que ao assistir
a um filme se depara com um personagem que é uma cópia fiel dele mesmo. No
decorrer do romance, acompanhamos a busca de um homem pela sua identidade, pela
sua subjetividade, pela sua essência mais verdadeira, mais pura. Tertuliano
Máximo Afonso tendo se afogado num redemoinho de reflexões e questionamentos
sobre seu “Eu” busca ferozmente recuperar a sua identidade que fora roubada
pelo seu duplicado.
Depois de ler
esse livro me deparei com algumas questões interessantes: E se tivéssemos uma
cópia nossa? O mesmo tipo de cabelo, a mesma cor do olho, a mesma altura, a
mesma cicatriz no braço direito, o mesmo sinal de nascença na nádega esquerda. E
se a voz fosse igual, o mesmo timbre com a risada idêntica? E se a nossa
semelhança fosse tão gritante a ponto de até mesmo nossos pais e amigos não
conseguissem nos apontar como o verdadeiro? Quem seria o verdadeiro? Quem é
você?
Felizmente não
temos uma pessoa que seja um duplicado nosso, pelo menos desconhecemos sua
existência. Mas mesmo assim, sem essa cópia algumas pessoas não se encontram
não se sente verdadeiros. Parece que sempre temos que provar para nós mesmos,
olha eu existo, eu não sou aquela pessoa que, equivocadamente, os outros dizem
que eu sou. Na verdade eu nem gosto de rock, eu gosto é de forró bebê!
A sociedade
vive nos empurrando conceitos e atitudes que devemos seguir, simplesmente por
que assim tem que ser. Mas eu se eu não gostar da música da moda? E se eu
quiser ser vegetariano? E se eu não quiser ficar com aquele garoto? E se eu não
quiser transar com aquela gostosona no primeiro encontro? Sociedade eu posso
renegar as sua regras? Posso ser um anarquista e ir contra esse seu sistema? E
se?
Posso escolher
aquele tênis amarelo com laranja? Eu gosto dessa combinação. Posso ouvir a
música Zulu, típica de alguns países africanos? Não gosto de pop ocidental.
Posso preferir Mc Catra a Chico Buarque? Posso gostar de Britney Spears e
AC/DC? E de Calypso e Charlie Brow? Posso assistir ao Programa Raimundo Pereira, aquele senhor que vende produtos para os
cabelos, panelas, cremes para hemorroidas e plena rede nacional? Gosto do
saudosismo dele, falando dos artistas do passando. Posso comer pão com banana?
E bucho de bode? Posso rir com os desenhos que passam na cultura, mesmo tendo
19 anos de idade? Posso tratar as mulheres como algo que me completa e não algo
que eu completo com o meu sexo? Posso ser amigo das pessoas sem pensar em
usufruir de alguma influência que elas tenham? Como homem eu posso ser sensível
sem que pensem que eu sou gay? Eu posso?
Quero poder
andar com o meu tênis amarelo com laranja sem problema nenhum! Quero comer pão
com banana todos os dias sem que as pessoas se incomodem com isso! Quero comer
pão de queijo com mostarda! Quero poder chorar lendo um bom livro! Quero rir de
um filme de terror! Quero ir ao cinema sozinho às vezes! Quero me apaixonar
pelo coração daquela pessoa e não pela conta corrente dela! Quero transar com
mais de mil mulheres na minha vida! Quero transar com a mesma mulher pelo resto
da minha vida, por que eu a amo!
Quero dar
altas gargalhadas com os meus amigos em plena aula de Linguística, sei que é
errado, mas eu quero! Quero ser vegetariano... Ah não agora eu quero comer
carne! Quero beber só um copo e meio de cerveja, enquanto os meus amigos já
estão na sétima garrafa! Quero ser um Arquivologista, não sei o que é isso, mas
eu quero! Quero rir de mim quando eu tropeço, mas quero rir de você também! Eu
quero!
Ao invés de
ser eu mesmo na minha intimidade, posso ser em público, sem fingir que sou uma
pessoa diferente só para te agradar Sociedade, eu posso?
Guardo minha
essência no meu coração, mas eu quero dividi-la com alguém. Se pudesse eu daria
um pedacinho de mim para cada pessoa que eu conheço e gostaria que elas fizessem
o mesmo. Compartilhar experiências, emoções, alegrias é melhor maneira de se
descobrir e descobrir outras pessoas.








