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sábado, 19 de novembro de 2011

Manifesto do Eu


Há pouco tempo terminei de ler um livro maravilhoso, O homem duplicado, do simplesmente brilhante José Saramago. Este livro trata de um assunto interessante e muitíssimo pertinente. Saramago nos conta a estória de um homem que ao assistir a um filme se depara com um personagem que é uma cópia fiel dele mesmo. No decorrer do romance, acompanhamos a busca de um homem pela sua identidade, pela sua subjetividade, pela sua essência mais verdadeira, mais pura. Tertuliano Máximo Afonso tendo se afogado num redemoinho de reflexões e questionamentos sobre seu “Eu” busca ferozmente recuperar a sua identidade que fora roubada pelo seu duplicado.

Depois de ler esse livro me deparei com algumas questões interessantes: E se tivéssemos uma cópia nossa? O mesmo tipo de cabelo, a mesma cor do olho, a mesma altura, a mesma cicatriz no braço direito, o mesmo sinal de nascença na nádega esquerda. E se a voz fosse igual, o mesmo timbre com a risada idêntica? E se a nossa semelhança fosse tão gritante a ponto de até mesmo nossos pais e amigos não conseguissem nos apontar como o verdadeiro? Quem seria o verdadeiro? Quem é você?

Felizmente não temos uma pessoa que seja um duplicado nosso, pelo menos desconhecemos sua existência. Mas mesmo assim, sem essa cópia algumas pessoas não se encontram não se sente verdadeiros. Parece que sempre temos que provar para nós mesmos, olha eu existo, eu não sou aquela pessoa que, equivocadamente, os outros dizem que eu sou. Na verdade eu nem gosto de rock, eu gosto é de forró bebê!

A sociedade vive nos empurrando conceitos e atitudes que devemos seguir, simplesmente por que assim tem que ser. Mas eu se eu não gostar da música da moda? E se eu quiser ser vegetariano? E se eu não quiser ficar com aquele garoto? E se eu não quiser transar com aquela gostosona no primeiro encontro? Sociedade eu posso renegar as sua regras? Posso ser um anarquista e ir contra esse seu sistema? E se?

Posso escolher aquele tênis amarelo com laranja? Eu gosto dessa combinação. Posso ouvir a música Zulu, típica de alguns países africanos? Não gosto de pop ocidental. Posso preferir Mc Catra a Chico Buarque? Posso gostar de Britney Spears e AC/DC? E de Calypso e Charlie Brow? Posso assistir ao Programa Raimundo Pereira, aquele senhor que vende produtos para os cabelos, panelas, cremes para hemorroidas e plena rede nacional? Gosto do saudosismo dele, falando dos artistas do passando. Posso comer pão com banana? E bucho de bode? Posso rir com os desenhos que passam na cultura, mesmo tendo 19 anos de idade? Posso tratar as mulheres como algo que me completa e não algo que eu completo com o meu sexo? Posso ser amigo das pessoas sem pensar em usufruir de alguma influência que elas tenham? Como homem eu posso ser sensível sem que pensem que eu sou gay? Eu posso?

Quero poder andar com o meu tênis amarelo com laranja sem problema nenhum! Quero comer pão com banana todos os dias sem que as pessoas se incomodem com isso! Quero comer pão de queijo com mostarda! Quero poder chorar lendo um bom livro! Quero rir de um filme de terror! Quero ir ao cinema sozinho às vezes! Quero me apaixonar pelo coração daquela pessoa e não pela conta corrente dela! Quero transar com mais de mil mulheres na minha vida! Quero transar com a mesma mulher pelo resto da minha vida, por que eu a amo!

Quero dar altas gargalhadas com os meus amigos em plena aula de Linguística, sei que é errado, mas eu quero! Quero ser vegetariano... Ah não agora eu quero comer carne! Quero beber só um copo e meio de cerveja, enquanto os meus amigos já estão na sétima garrafa! Quero ser um Arquivologista, não sei o que é isso, mas eu quero! Quero rir de mim quando eu tropeço, mas quero rir de você também! Eu quero!

Ao invés de ser eu mesmo na minha intimidade, posso ser em público, sem fingir que sou uma pessoa diferente só para te agradar Sociedade, eu posso?

Guardo minha essência no meu coração, mas eu quero dividi-la com alguém. Se pudesse eu daria um pedacinho de mim para cada pessoa que eu conheço e gostaria que elas fizessem o mesmo. Compartilhar experiências, emoções, alegrias é melhor maneira de se descobrir e descobrir outras pessoas. 

Companheiros